Em 1 de agosto de 2008 eu fiz uma tatuagem. Quem quiser ver a imagem ela está em um post intitulado vontade. É a palavra vontade escrita em binário na minha mão direita.
As pessoas nunca vêem a beleza da palavra quando eu digo o que esta escrito na minha mão. Ou não entendem o tamanho da sua beleza. Tudo bem. Não importa. Deve ser por isso ate que eu tenho ela tatuada na mão e não eles.
A origem da beleza, eu descobri logo cedo. E com absoluta certeza, é esse sentimento que esta correndo em minhas veias que falo agora.
Embora já tenha passado mais que uma década, essa é uma das coisas que lembro me perfeitamente.
Quando eu era criança e depois adolescente, como todos os estudantes do país, por lei ate, eu tinha que fazer 3 aulas de educação física por semana. Pensando assim, me parece a lei mais incrível que me impuseram nesta vida.
Enfim, essa pode ter sido a lei que mudou a minha vida.
Lembro bem que tinha duas aulas na terça feira e uma na sexta feira. Nunca gostei de dormir muito, mas acordar também não é uma tarefa fácil para quem dorme pouco. Mas o que define se você vai acordar ou não é a primeira coisa que você pensa no primeiro segundo em que abre os olhos.
Na segunda feira, a primeira coisa que eu pensava nesse segundo era na aula de educação física. Eu sabia que a aula era na terça, mas a terça só chegaria se a segunda passasse. E isso já era o suficiente para eu acordar todos os dias. Na segunda acordava porque estava chegando mais perto da terça, e na terça, acordava porque o grande dia havia chego. Na quarta era porque se passasse a quinta, a sexta estaria mais próxima, e a quinta, era porque faltava muito pouco para a sexta. E a sexta por que… Simplesmente era a sexta. Se eu contar, vivi 7 anos em função de umas 3 horas (no máximo) por semana. Nenhuma outra aula era incomoda o suficiente para destruir a vontade que eu tinha de estar naquela aula. A de educação física.
Não me lembro de um dia sequer que eu não tenha querido acordar durante todos os vários anos que passei na escola.
Realmente lembro-me do sentimento que era acordar só para jogar bola. Parece idiota. Mas é essa vontade que eu quero correndo em minhas veias. Chego a me invejar por aqueles tempos. Tempos onde jogar bola, podia ser praticamente motivo para viver.
Hoje, uma vez adultos idiotas, não jogamos mais bolas, porque nossos corpos velhos e sedentários não conseguiriam trabalhar no dia seguinte de dores por meia hora de esforço físico, e também nem conseguiríamos 10 amigos que estejam dispostos a se movimentar por uma bola. Nao fazemos excursões com os amiguinhos, porque nossos amiguinhos não tem mais tempo e porque não dizer vontade mesmo em estar juntos por algumas horas para brincar de alguma coisa ou mesmo conversar de outra coisa que não seja casar, comprar apartamento, quanto perdeu de dinheiro com a crise na bolsa de valores ou quem é o novo gerente do Santander. Agora excursão chama barzinho. E esporte só tomar cerveja mesmo. Ninguém mais se apaixona pelos amiguinhos. Todos já chegaram na época que ta na moda casar, aquele tempo onde todos começam a casar com o primeiro que aparece só porque o que todo mundo faz nessa época é casar. Praticamente uma reação em cadeia. Baseada em uma cultura que não existe mais. Bom, to cansada de falar sobre casar. Ah, e também porque agora os amiguinhos não são dignos de paixões. Somos velhos, preconceituosos, exigentes e egoístas. Nossos amiguinhos não estão mais a altura que nossas exigências nos permitem.
Eu adorava ir para a escola.
Bom, como disse meu amigo Sêneca, que adianta lutar contra os seus vícios se você vai ter que lutar contra o dos outros.
Talvez hoje eu não tenha tantas vontades quanto gostaria. Mas as poucas que tenho hoje me fazem acordar todos os dias. E é isso que eu quero, só acordar.
Então, tudo o que eu preciso é de vontade. O resto eu me viro. Porque ela me move e como dizem, só por ela eu falo.
E para quem não sabe (acho que ninguém nunca soube) é isso que está escrito na minha mão direita. É essa vontade de que falo.
Na mão esquerda vai “escolha”. Mas esse é um outro capítulo.
Pergunta numero 3#
O que é que você pensa no primeiro segundo depois que abre os olhos todas as manhãs?
Se você não souber responder, talvez nunca saiba da vontade que falo.
Luciana Keiko
No mundo onde a fortuna não está em nenhum lugar e em nenhum bem. Mas na vontade. Nem que for de jogar bola.

