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O mundo de Keika by Luciana Keiko

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1. A maior parte dos mortais, Paulino, lamenta a maldade da Natureza, porque já nascem com a perspectiva de uma curta existência e porque os anos que lhe são dados transcorrem rápida e velozmente. De modo que, com a exceção de uns poucos, para os demais, em pleno esplendor da vida é que justamente esta os abandona. No entanto, como se imagina, não apenas o comum dos mortais ou a massa ignorante sofre desse mal geral, pois, ao afetar também os homens cultos, seus efeitos geram muitos lamentos. 2. Por isso, aquela expressão do pai da medicina(*):”a vida é breve, a arte, longa”. Por isso, o intento de Aristóteles (não próprio de um homem sábio) com a Natureza, exigindo um mínimo de equidade: “A Natureza concede aos animais um tempo de vida tal, que lhes permite ver passar cinco ou dez gerações; ao homem, nascido para realizar muitas e grandes coisas, fixa um limite mais breve”. 3. Não temos exatamente uma vida curta, mas desperdiçamos uma grande parte dela. A vida, se bem empregada, é suficientemente longa e nos foi dada com muita generosidade para a realização de importantes tarefas. Ao contrário, se desperdiçada no luxo e na indiferença, se nenhuma obra é concretizada, por fim, se não se respeita nenhum valor, não realizamos aquilo que deveríamos realizar, sentimos que ela realmente se esvai. 4. Desse modo, não temos uma vida breve, mas fazemos com que seja assim. Não somos privados, mas pródigos de vida. Como grandes riquezas, quando chegam às mãos de um mau administrador, em um curto espaço de tempo, se dissipam, mas, se modestas e confiadas a um bom guardião, aumentam com o tempo, assim a existência se prolonga por um largo período para o que sabe dela usufruir.

(*) Hipócrates, Aforismos, 1,1. “A vida é curta, a arte é longa. A ocasião, figidia. A esperança, falaz. E o julgamento, difícil.”

Sobre a Brevidade Da Vida. #02

Ou todo mundo lê, ou ninguém Lê.
Se Sêneca tivesse um blog, o mundo seria outro.

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    Filósofo, dramaturgo, político e escritor, Lúcio Anneo Sêneca ( 4ª.C.?-65d.C) foi um dos expoentes intelectuais de Roma no início da Era Cristã. Filho do retórico Marco Anneo Sêneca nasceu em Córdoba, na Espanha. Ainda Jovem foi levado para Roma, onde recebeu uma educação refinada, aprofundando-se em gramática, retórica e filosofia estóica. De saúde frágil, passou uma temporada no Egito quando tinha vinte anos, para tratamento. De volta a Roma, estabeleceu-se como advogado (alguém que falava no lugar de outra pessoa). Como conselheiro, tomou parte na corte do imperador Calígula. Em 41 d.C., Messalina, mulher do imperador Cláudio, provocou o banimento de Sêneca para Córsega sob a acusação de adultério. Ele passou o exílio estudando, e escreveu “Consolationes”. Em 49 d.C., a nova mulher de Cláudio, Agripina, chamou-o a Roma para ser tutor do seu filho, L. Domitius. Em 50 d.C, Sêneca recebeu o cargo de pretor. Em 54 d.C, à morte de Cláudio, L. Domitius, pupilo de Sêneca, tornou-se o imperador Nero e passou a governar sob orientação de Sêneca. Em 56 d.C, publicou “De Clementia”. Aos poucos, porém, Sêneca e outros conselheiros perderam a influência sobre Nero, e o governo deste tornou-se cada vez mais tirânico. Em 62 d.C, Sêneca aposentou-se e passou a dedicar o seu tempo ao estudo e à escrita. Em 65 d.C, foi acusado de participar de um golpe para assassinar Nero. Sem julgamento, recebeu do imperador a ordem de cometer o suicídio, que ele cumpre, abrindo as veias. Um relato do seu suicídio pode ser encontrado no livro XV dos anais de Tácito. Sua obra compreende uma sátira, ensaios e diálogos filosóficos, cartas e várias tragédias. O pensamento de Sêneca, influenciado pela escola estóica, enfatizava medidas práticas por meio das quais enfrentar os problemas da vida, e também, a necessidade de se encarar a própria mortalidade e a morte.

    Sobre a Brevidade Da Vida. #01

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    LXIII
    Do pesar pelos amigos falecidos
    Seneca saúda o amigo Lucílio

    Lamento muito pela morte do teu amigo Flaco, porém não quero que tu sofras mais do que deves. Ouso exigir fortemente que não sofras, também sei ser o melhor. Mas quem terá esta firmeza de espírito a não ser quem já está elevado muito acima do destino? A ele também entristecerão essas coisas, mas apenas isso. Mas a nós, se irrompemos em lágrimas, isto é perdoável, se não forem em excesso e se nos forçamos, nós próprios, por reprimi-las. Morto um amigo, os olhos não devem ficar nem secos nem inundados; devem lacrimejar, não chorar copiosamente.
    Parece que te imponho uma dura lei, quando o maior dos poetas gregos concede o direito de chorar, mas por um único dia, quando disse ser esse o tempo durante o qual Níobe se preocupou com o alimento. Perguntas de onde vêm as lamentações e os prantos desenfreados? Através das lágrimas queremos mostrar a nossa saudade, e não nos conformamos com a dor, nós a ostentamos. Ninguém é triste para si. Oh, infeliz estupidez! Existe também uma certa exibição na dor.
    “Como?”, perguntas. “Deverei esquecer um amigo?” Será breve a memória dele junto a ti se ela ficar junto com a dor; algo fortuito a mudará em riso. Não remeto para um tempo longínquo que transforma toda dor e atenua os lutos mais fechados. Tão logo deixes de te observar, a imagem dessa tristeza desaparecerá. Agora, tu mesmo guardas a tua dor, mas ela foge do guardião; quanto mais forte, mais rapidamente termina.
    Façamos com que seja alegre a memória dos nossos mortos. Ninguém volta livremente àquilo que não pode pensar sem sofrimento, e é necessário que assim seja. O nome daqueles que amávamos e perdemos provoca-nos dor, mas também essa traz em si um prazer que lhe é próprio.
    Costumava dizer o nosso Àtalo, “a memória dos amigos falecidos é como alguns frutos que são suavemente ásperos, como o vinho muito envelhecido cujo próprio amargor nos deleita; porém, quando passou um espaço de tempo, toda a angústia se extingue e nos vem um prazer puro”.
    Se cremos nele, “pensar nos amigos vivos é como bolo com mel, mas também é útil a memória dos que se foram, embora traga uma satisfação amarga. Quem negaria que coisas acres e ásperas também estimulam o estômago?”
    Eu, porém, não penso igual. Para mim, o pensamento sobre os amigos falecidos é doce e brando, pois os tive sabendo que ia perdê-los, e quando os perdi, era como se ainda os tivesse. Faze pois, meu Lucílio, de acordo com o teu equilíbrio, não interpreta mal um benefício da sorte; ela tirou, mas deu.
    Por isso, desfrutamos avidamente da presença dos amigos, porque não podemos ter certeza por quanto tempo ainda o teremos. Pensemos que, freqüentemente, os relegamos por alguma longa viagem, ou que, muitas vezes, não os vemos mesmo morando no mesmo lugar, e compreenderemos que, quando estavam vivos, perdemos muito tempo.
    Podes tolerar aqueles que tratam os amigos de forma negligente e depois choram com muita lástima, não amando a ninguém exceto depois que os perderam? Por isso, choram efusivamente, porque temem que haja dúvidas de que os amaram, querem indícios tardios do seu afeto.
    Se temos outros amigos além deste, nós os ofendemos e os estimamos pouco, pois pouco importam para nos consolar da perda de um apenas; se não temos, o mal que fazemos à nos mesmos é maior que aquele que recebemos do destino: este nos tirou um amigo; nós, todos aqueles que não soubemos conquistar. Ora, quem não pode amar mais de um não pode, na verdade, nem amar aquele único. Se alguém, tendo sido espoliado de sua única túnica, preferisse chorar a buscar um modo de proteger-se do frio e encontrar algo para cobrir suas costas, não te pareceria muito estúpido?
    Quem amavas morreu, procura outro para amar. É melhor recuperar um amigo do que chorar. Se que isso que vou acrescentar é dito e repetido, mas não vou omitir porque já foi comentado por todos: o fim à dor – se a vontade não pôs, o tempo porá. Mas é muito torpe para um homem prudente que o remédio da dor seja o cansaço da própria dor. É melhor que tu abandones a dor do que ela te abandone; desiste disso, porque, mesmo que não queiras, não poderás fazê-lo por muito tempo.
    Os nossos ancestrais estabeleceram um ano de luto para as mulheres, mas com limite máximo, não mínimo; para os homens, ao contrário, a lei não fixa nenhum período, porque não é digno. Tu podes me dizer de quantas daquelas mulheres tiradas à força da pira funerária, que à força foram separadas dos maridos, as lágrimas duram um mês inteiro? Nada vem tão rápido na direção do ódio do que a dor. Ela, quando recente, encontra consolo e reúne outros ao seu redor; contudo, se é inveterada, produz riso, não sem mérito. Com razão, ou era simulada ou estúpida.
    Eu te escrevo estas coisas, eu, que chorei tão imoderadamente o meu caríssimo Aneu Sereno, eu, que de modo algum desejava, estou entre os exemplos daqueles a quem a dor venceu. Hoje, porém, condeno o meu comportamento e compreendo que a maior causa do meu pranto foi nunca ter pensado que ele poderia morrer antes de mim. Esta é a única coisa que me ocorria: que ele era mais jovem que eu, muito mais jovem, como se o destino seguisse uma ordem cronológica.
    Assim, assiduamente reflitamos sobre a mortalidade tanto nossa quanto de todos aqueles que estimamos. Eu deveria ter dito: “O meu Sereno é mais jovem do que eu, mas o que isso importa? Deve morrer depois de mim, mas pode morrer antes.” Já que não agi assim, o destino me pegou despreparado para um desventura súbita. Agora leva em conta que todas as coisas são mortais e, enquanto mortais, tem leis incertas. Poderia acontecer hoje aquilo que poderia acontecer num dia qualquer.
    Pensemos, pois, querido Lucílio, logo nós também iremos para onde ele já foi e lamentamos. Talvez, se os sábios dizem a verdade, se há um lugar que nos recebe, aqueles que pensamos que morreu simplesmente nos precedeu. Passa bem!

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